BARLAVENTO
Rajadas de coisas trazidas pelo vento abanam-me a mesinha de cabeceira.
O garfo a bater no prato vazio, faz do jantar percussão.
Terá havido um tempo em que as pessoas conjugavam o verbo percutir?
O bico da caneta sem tinta cria ondas na folha em branco.
A pressão alta põe à prova os materiais. Knock on wood.
À procura de cedências, até que o material desista.
Água mole em pedra dura. A rebarbadora também e mais depressa.
A resistência tenta suportar a pressãozinha! Aguenta, aguenta.
Gravam-se traços nas superfícies, é assim com os cactos e com as paredes. A parte de trás da folha marcada por ideias pensadas ao contrário.
As tempestades têm nomes.
Vi um pedaço do telhado esvoaçante. A culpada, a Eunice.
Peço desculpa mas de momento só consigo pensar no meu trabalho.
Tenho outras coisas para fazer. As ideias vêm em direções contrárias, empurrando-me para o meio do oceano.
No fim do dia não me mexo, nem para um lado nem para o outro.
E a guarda costeira bem que me avisou: sem prioridades não vais a lado nenhum. Palavras de merda deixam-nos na mesma.
Vêm-me à cabeça todos os meus amigos, todos prontos para ajudar.
A mesinha de cabeceira continua a bater e vai desfazendo a parede como o vento faz às rochas. Daqui a milhões de anos o meu quarto será a praia todas as noites.
Confio no desgaste dos ossos.
Só fica o que faz falta.
E o pó que resta vai-me batendo na vela, na esperança de que me leve a mim e aos meus amigos até dias bonitos.
Press Release by aDrogaria (Francisco Correia), 2022